E eu sequer me lembro de como tudo começou.

(leia esse post ouvindo ESSA música)
Essa é uma carta aberta sobre tudo aquilo que eu nunca te falei.

Sobre como você me fazia mal com a sua indiferença, sobre como você não demonstrava me amar, e sobre como isso fazia com que eu acreditasse ainda mais no seu amor.
Sobre como eu poderia fazer tudo por você, menos ser outra pessoa. E é mentira dizer que não tentei. Tentei e não só uma vez.
Colocava outras roupas, me vestia de moderninha, de ‘pra frentex‘, me pintava de palhaça cosmopolita e fingia estar feliz, mas quando chegava na minha cama, no dia seguinte, eu tinha que limpar tudo aquilo e na carne exposta dava pra ver cada cicatriz que as fantasias deixaram. Outras personalidades sucks. Eu gostava de quem eu era, especialmente quando estava com você, mas não gostava de quem você achava que eu era.
Não gostava de saber que você acreditava em tudo o que eu te contava. Eu só te contava mentiras. Eu ria das besteiras que você falava sobre ter bebido durante a semana e ter tirado a virgindade de uma ou outra que você conhecia por aí. Eu dava risinhos estridentes e batia no seu braço te chamando de ‘bobo’, eu fingia não reparar em você olhando o cabelo que caia no meu rosto pra romantizar essa doença que eu tratava como amor. Esse vício pungente que me alimentava, que me preenchia de forma vazia, transformando todo resto em vácuo.
Eu fazia tudo tão segura e confiante, tão ‘dona de mim‘, tão controladora e meticulosa, que não enxergava mais nada. Eu não via meus amigos me jogando pro canto das mesas, estapeando minha cara com todo tipo de dica nada sutil do quanto eu estava dissimulada e catatônica. Do quanto eu não era mais eu, do quanto eu tinha vergonha das minhas próprias conquistas, porque eu não podia ser melhor do que você. Você não iria gostar de alguém tão responsável e feliz, enquanto era tão miserável e sozinho, mesmo quando tinha um monte de gente envolta.
Eu não via nada disso.
Eu só via sua pele quente, os abraços com gosto de frio e tequila barata, sua vontade ilusória de levar a vida divertida e livre, via sua ambição, seu egoísmo e queria cada vez mais, poder completar seu quebra cabeça, mesmo ele sendo danificado, desbotado, desprezível. Eu sempre fui teimosa, você sempre foi cruel.

Daí acabou.
Aquele afogamento doentio que me matou, aos poucos foi se tornando um buraco de cinza de cigarro. Eu sequer me lembro de como tudo aquilo começou.
Lembro só de recolher meus ossos quebrados, os restos de mim, o que sobrou da minha dignidade, das unhas roídas e das músicas que eu colocava pra tocar.

*

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23 comentários sobre “E eu sequer me lembro de como tudo começou.

  1. Sua maravilhosa ♥

    Nunca mais esconda esses textos da gente, viu?!
    E nem esconda a verdade de si mesma, porque por mais que ela seja dolorida, é só o que resta no final, e é onde a gente se apóia pra recomeçar!

    :*

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  2. Vera. Do. Céu. Que texto!
    Primeiro, muito bem escrito! Você me fez sentir e ver cada coisa junto com você! Incrível!
    segundo, aposto que metade das mulheres do mundo já passaram por isso, eu inclusive! Até a gente retomar o controle da própria vida pode demorar. Fico feliz por você ter compartilhado isso! Vai causar tanta empatia por aí!
    Parabéns pela coragem de falar sobre isso!

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  3. Que texto mais tocante, musinha!! Sério, mil vezes parabéns!! Sei o quanto é difícil expor sentimento tão íntimos assim, mas te vejo como uma mulher muito forte e guerreira! É passando por fases como essa que a gente aprende aprende o que é melhor pra gente e vocês merece só as melhores coisas e pessoas! Eu amei <3
    Beeeijos

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  4. Poxa vida… Que texto! Me identifiquei MUITO Verinha!
    Tem momentos do relacionamento em que me sinto assim, me empenhando pra ser alguém que não sou. Mentindo pra mim mesma que isso me faz feliz. Me afundando nessa carência que nomeei como amor. Não, não era amor e nem adianta querer aceitar isso…
    Melhor sair disso e levantar a cabeça! Ser você mesma e conhecer o maior amor do mundo: o amor próprio! Num é???!!
    Ei, quero ter mandar uma cartxxxinha!! Me passa teu endereço despuess!! :)
    Xero

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  5. Vera, querida, nem sei dizer… só sentir! Que texto, quanto sentimento, quanta identificação com cada palavra. Me senti aí, nas suas palavras. Só quem passou por isso sabe como é. Sabe como dói, e sabe como se libertar disso é revigorante. Pode parecer egoísmo, mas não existe nada, que hoje eu ame mais do que eu. Me amo, e não me permitiria passar por isso. Me amo, e permito amar, e ser amada de verdade.
    Escreva mais, por favor, muito mais. Você escreve muito bem e quero ver mais disso por aqui.
    Milhões de beijos no coração <3

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    • QUE COMENTÁRIO LINDO, LULLY!
      Primeiro que amei você ter se identificado, é bom saber que alguém já passou por algo parecido..
      E QUE MARAVILHOSO seu amor próprio! Fiquei emocionada em saber que você construiu essa confiança!

      Obrigada pelos elogios e pelo incentivo! mesmo!
      Beijos, lindona!♥

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  6. […] E eu sequer me lembro como começou – Extraordinariando Sabe quando você lê um texto que depois fica uns bons minutos olhando pra ele, sem pensar, sem saber o que falar, só sentindo? Quando as palavras entram lá na sua alma e te fazem lembrar? Pensar? Esse texto é um deles. Me identifiquei, e muito, totalmente. Só digo uma coisa, leiam. Cresçam e se amem. E leiam esse texto! […]

    Curtir

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